segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O homem que nunca dormiu.

Nunca conseguiram explicar sua doença. Uma anomalia que a ciência médica admitiu não ter respostas.

Amir Cunha escondeu seu problema quase sua vida inteira. Quando pequeno não entendia porque todas as pessoas morriam durante a noite. Isso apavorava o menino com então quatro anos de idade.

- Já para cama, filho!

- Mas mãe, eu não consigo dormir. – dizia Amir com cara de choro.

- Fecha os olhos que o sono vem. – a mãe encerrava a discussão com esta sentença.

Amir deitava em sua cama, fechava os olhos, e fingia estar dormindo quando sua mãe vinha dar o beijo de boa noite. A madrugada era longa e o sono não vinha. Para passar o tempo pintava figuras, fazia os deveres de casa, desenhava sempre um bonequinho em forma de palito dormindo em uma cama imensa toda ornamentada. Conforme ia crescendo, passava a noite toda lendo diversos gêneros de livros principalmente ficção. Adorava Edgar Allan Poe, Agatha Christie, e um dos seus prediletos era O velho e o mar de Ernest Hemingway. Amir amava o velho Santiago de Hemingway, personagem que travava uma batalha épica para capturar um peixe enorme em alto mar. Amir compartilhava suas angústias e medos e admirava sua coragem e insistência. Parecia até que o conhecia pessoalmente, pois lera o livro diversas vezes.

Amir arriscava escrever algumas coisas, não se considerava um escritor, mas alimentava um sonho de publicar um livro algum dia e fazer grande sucesso. Em uma noite escura e silenciosa, começa a escrever quase instintivamente com um lápis na contracapa de um de seus livros: “Enquanto todos dormem, meus olhos continuam abertos, o corpo e a mente inquietos, dando forma à minha insônia.” Sua mãe sempre o elogiava dizendo que era muito inteligente, e aprendia com muita rapidez as disciplinas da escola. Ela nunca soube que Amir ficava acordado todas as noites e combatia o tédio estudando. Pegou o gosto pelos estudos naquelas noites solitárias e nunca adormeceu nem uma vez sequer. Ele escondia isso de sua mãe, pois sabia que ela não iria acreditar nele.

“Eu nunca vi nada parecido em toda minha vida, Amir. A falta de sono não afeta a sua regeneração celular. O seu corpo não precisa de descanso e seus exames deram todos normais.” – disse o médico com o olhar cético por cima dos óculos de armação preta. Amir, com 23 anos de idade, sentado em um consultório médico buscando respostas para sua peculiaridade. Já na saída da sala de consultas, Amir vira para o médico e diz: - Por favor, Doutor, não conte a ninguém.

Os exames podem ter dado todos normais, mas Amir não se sentia feliz. Era alguém muito sozinho, acostumara com a solidão, pois sempre passou suas noites fingindo estar dormindo. Tinha o costume de deitar com a lanterna apoiada no seu ombro direito enquanto mergulhava na leitura incansável de pilha de livros dispostas em estantes espalhadas pelo quarto. Quando alguém o visitava a admiração era inevitável: - “Nossa, Amir, seu quarto parece mais uma biblioteca!” Ele se orgulhava de sua coleção. Dizia que amava a companhia de seus livros.

Os dias de Amir passavam rápido. Ele trabalhava em um escritório de advocacia como estagiário no décimo quarto andar de um prédio com aparência antiga localizada no centro do Rio de Janeiro. No prédio não existia o décimo terceiro andar e isso sempre intrigou Amir. Não era um homem supersticioso e se pudesse escolher trabalharia nesse andar fantasma. Era um bom aluno de Direito cursando o último ano. Lia e relia o Vade Mecum em suas noites acordado.

Sophie era sua amiga desde o primeiro semestre do curso. Já no primeiro dia de aula sua beleza chamou a atenção de Amir. Morena, de estatura mediana, olhos verdes, grandes e vivos, seu rosto era delicado, sua expressão era leve e acessível. Amir em todos os anos de estudos não teve coragem de chamá-la para sair, mas nesse último ano prometeu para si mesmo que tentaria.

Nos últimos dias de faculdade, Amir chamou Sophie para sair. Ele foi surpreendido com sua resposta: “Esperei por esse convite desde o primeiro dia do curso.” Amir quase morreu de vergonha, e arrependimento, pois perdera cinco anos de sua vida por medo de conquistá-la.

O casamento aconteceu, ele parecendo um pinguim e ela toda deslumbrante de branco.

No começo Sophie não sabia do problema de Amir, mas ela percebeu que quase todas as noites quando acordava de madrugada ele não estava dormindo e muitas vezes nem estava na cama. Encontrava-o assistindo TV, ou lendo sentado no sofá da sala de estar ao lado de uma luminária verde. “Vem dormir querido” - chamava Sophie carinhosamente. Então Amir voltava para cama e fingia dormir até amanhecer.

Em uma madrugada gelada de inverno, Amir estava sentado no mesmo sofá se imaginando a bordo daquele pequeno barco de pesca junto com o velho Santiago quando Sophie aparece e antes da esposa perguntar o porquê de estar acordado se adianta e diz: “Amor, sente-se aqui ao meu lado, preciso te contar algo muito importante.” Amir contou tudo à esposa, que escutou calada e com uma expressão que misturava espanto e ceticismo. O dia amanheceu enquanto Sophie esboçava uma reação dizendo que não tinha problema, e que iriam se adaptar a essa situação. Que ela seria compreensiva e deixaria Amir ler à vontade durante a madrugada, mas com uma condição: ele teria que mudar a luminária para o criado-mudo do quarto.

Amir e Sophie decidiram então ter um filho. Alguns meses depois nasce uma filha linda, com os olhos da mãe. Tocar pela primeira vez no rostinho angelical daquela criatura minúscula e frágil é uma emoção como nenhuma outra no mundo. Na maternidade Amir a segurava no colo, e se perguntava se ela teria herdado a mesma peculiaridade dele.

Na volta para casa, Amir estava obstinado a sanar sua dúvida. Ele prestava todos os cuidados ao bebê durante a madrugada. Trocava fraldas, cantava canções de ninar, e dava a mamadeira. Nas primeiras semanas ele percebeu que sua filha chorava muito durante as noites. “Querido, isso é normal, todo bebê chora muito. Não se preocupe que ela não herdou sua doença.” – Com uma certeza na voz, Sophie tenta acalmar a ansiedade de Amir.

Mas ele não gostou de ouvir que tinha uma doença. Isso o feriu no fundo do seu coração, mas não disse nada à sua esposa. Ele apenas queria ser normal. Queria deitar na cama depois de um dia de trabalho e dormir o sono dos justos. Desejava adormecer nos braços de sua amada e sonhar. Ele nunca havia sonhado na vida. Sophie tentava explicar como era a sensação de estar dentro de um sonho e isso só o fazia odiar ainda mais sua anomalia. O velho pescador Santiago o encantava, pois era um sonhador. Sonhava com a África, com as extensas praias de areias brancas, e em seus sonhos podia ouvir o barulho das ondas, e sentir o cheiro daquele país majestoso. Amir talvez invejasse Santiago. Queria ter a vida simples daquele pescador.

O verdadeiro pesadelo de sua vida começou em uma semana quando sua filha já estava com oito meses de idade. Ele resolveu passar a noite inteira sentado ao lado do berço observando atentamente os pequenos olhos esmeralda da filha. Algumas horas pareciam fechados e dormia como um anjo. Mas em um determinado momento, naquelas noites de profunda angústia no coração, a verdade veio à tona. Sua filha não dormia! O corpinho ficava imóvel no meio do berço, mas em nenhum momento aquela criança adormecia. Amir chorou. Quando Sophie acordou pela manhã, ela apenas o abraçou e não perguntou nada. Já sabia o porquê de suas lágrimas.

Os dias se passavam todos iguais para Amir. A tristeza crescia em sua alma. Não lia mais seus livros. Apenas fitava o vazio com um turbilhão de pensamentos desconexos jorrando ininterruptamente em sua cabeça. Sua esposa tentava animá-lo dizendo que ela iria crescer e se tornar uma mulher muito inteligente e que mudaria o mundo com seus feitos. Mas nada disso adiantava. Sophie estava ficando preocupada. Tentou marcar uma consulta com o médico da família, mas Amir não comparecia ao consultório. Ele estava com depressão. Não comia mais, conversava muito pouco com Sophie. O casamento já não estava indo bem. Amir emagreceu. Sua expressão era cansada e seus olhos sem brilho.

Na manhã negra de segunda-feira, o céu estava completamente nublado e caía uma chuva fina. Sophie acordou mais uma vez sozinha na cama. Sentia falta do marido quando se levantava todos os dias, mas não verbalizava esses segredos para não deixá-lo ainda mais triste. Quando foi para cozinha fazer o café, Amir já estava arrumado para trabalhar. Estava sentado na mesa ao lado do balcão, com o olhar distante e fixo no chão. Sophie estava de licença maternidade e ficava em casa cuidando de sua filha. Amir tomou em silêncio um café preto, e deu um beijo um pouco mais demorado em Sophie. Ela estranhou, mas ficou feliz, pois o que ela mais desejava era ter um casamento satisfatório.

Entrou no elevador e apertou o botão para o décimo quarto andar. Aquele dia ele não pensou no andar fantasma. Abriu a porta do escritório e sentou em sua mesa. Ficou alguns minutos apenas pensando. Parecia sonhar igual ao velho Santiago. Imaginou sua infância, seus brinquedos prediletos, sua mãe, seu pai sempre ausente, o casamento com a mulher dos seus sonhos, e a alegria no dia em que sua filha nasceu. Levantou-se da cadeira, e caminhou até a janela. Observou os carros, as buzinas tocando inutilmente, as pessoas caminhando com pressa. Não pensava em mais nada. Subiu no parapeito da janela. Sentiu o vento em seu rosto e os pingos da chuva em seus lábios. Sua respiração era forte. Amir fechou os olhos, prendeu o ar em seus pulmões e pulou para o seu destino final. O chão se aproximava lentamente de Amir, e enquanto não se cumpria aquela tragédia o rosto de sua filha era lembrado, cada traço desenhado com tamanha perfeição, as bochechas rosadas, o olhar inocente, a mãozinha apertando seu dedo indicador. No último segundo antes do seu rosto tocar a calçada dura e fria, Amir adormeceu pela primeira vez.


Um comentário:

Margarida Rodrigues disse...

Aprecio bastante o seu blog e os seus posts. Sempre que posso tenho visitado o mesmo e delicio-me com o que escreve. Até coloquei na barra de favoritos :)

Espero que continue com o bom trabalho.

Cumprimentos

Margarida Fonseca Dias

www.fichiers-de-france.com